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Educação Infantil e Literatura

Como trabalhar o livro Amoras na Educação Infantil

Veja uma sequência pedagógica para trabalhar o livro Amoras, de Emicida, na Educação Infantil, com leitura, identidade negra, natureza, arte e participação das crianças.

Por equipe editorial do IBETPAtualizado em 14 de julho de 2026Leitura: 13 minutos
Professora negra realiza mediação de leitura antirracista com crianças diversas na Educação Infantil

Para trabalhar o livro Amoras na Educação Infantil, organize uma leitura literária sensível, escute as interpretações das crianças e amplie os temas da obra — identidade negra, autoestima, pertencimento, ancestralidade, família, palavras e natureza — por meio de conversas, investigação de frutas e plantas, autorretratos, brincadeiras e produções coletivas. O livro não deve virar apenas pretexto para fichas ou atividades de colorir.

Amoras, escrito por Emicida e ilustrado por Aldo Fabrini, oferece uma experiência poética em que afeto, negritude, referências culturais e observação do mundo se encontram. A obra pode favorecer identificação positiva de crianças negras e ampliar o repertório de toda a turma, desde que a mediação respeite a literatura e não reduza personagens e culturas a uma lição moral.

Uma boa proposta começa pelo encontro com o livro. Antes de explicar “o que a história quer dizer”, permita que as crianças observem capa, cores, imagens, ritmo e palavras. Perguntas abertas — “o que vocês perceberam?”, “qual imagem chamou atenção?” — produzem mais participação do que um questionário com respostas esperadas.

Resposta direta

Leia Amoras integralmente, converse sobre as interpretações das crianças e planeje experiências relacionadas a identidade, beleza, famílias, natureza e culturas afro-brasileiras. Use autorretratos, rodas de conversa, observação de amoras, pesquisa de palavras e um mural de referências negras. Evite copiar ilustrações, exigir uma cor de pele “padrão” ou concentrar o tema apenas no Dia da Consciência Negra.

Por que trabalhar Amoras com crianças pequenas?

Crianças constroem ideias sobre identidade e diferença desde cedo. Elas observam tons de pele, cabelos, traços, nomes, famílias e representações presentes nos livros. Quando a biblioteca mostra somente protagonistas brancos ou pessoas negras em posições estereotipadas, transmite uma mensagem sobre quem pode ocupar o centro das histórias.

A literatura infantil afro-brasileira pode fortalecer pertencimento e autoestima, além de criar oportunidades para reconhecer e enfrentar preconceitos. Isso não significa colocar sobre uma criança negra a responsabilidade de explicar racismo ou representar todo um grupo. O educador conduz o trabalho e garante que cada criança participe sem exposição.

Eixos da proposta
leitura literária+identidade e pertencimento+investigação e criação
A obra permanece no centro, e as experiências ampliam o que as crianças observaram e imaginaram.

Quais objetivos de aprendizagem podem ser mobilizados?

Na Educação Infantil, objetivos dependem da faixa etária, do currículo da rede e do percurso da turma. A proposta pode dialogar com direitos de conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se, além dos campos de experiências da BNCC. O planejamento não precisa transformar cada página em uma habilidade isolada.

Campo de experiênciasPossibilidades com a obraEvidências a observar
O eu, o outro e o nósIdentidade, pertencimento, respeito às diferenças e relações familiares.Como a criança fala de si, escuta colegas e reage a diferentes representações.
Escuta, fala, pensamento e imaginaçãoLeitura, reconto, perguntas, criação de hipóteses e ampliação de vocabulário.Interpretações, comentários, narrativas e novas palavras usadas nas conversas.
Traços, sons, cores e formasAutorretrato, mistura de tons, fotografia, música e composição visual.Escolhas de materiais, detalhes representados e explicações sobre a produção.
Espaços, tempos, quantidades, relações e transformaçõesObservação de frutos, folhas, cores, sementes, crescimento e mudança.Comparações, classificações e hipóteses sobre a natureza.
Corpo, gestos e movimentosBrincadeiras cantadas, gestos de cuidado, dança e expressão corporal.Participação, criação de movimentos e interação com o grupo.

Preparação: leia e estude antes da roda

Leia a obra várias vezes e observe palavras, imagens, referências culturais e passagens que podem gerar perguntas. Pesquise o autor e o ilustrador em fontes confiáveis. Reflita também sobre seu próprio vocabulário: “negro” e “preto” não são palavras que precisam ser evitadas; o problema está no uso pejorativo e no racismo.

Verifique o acervo da turma. Um único livro não sustenta uma educação antirracista. Inclua regularmente obras de autores e ilustradores negros, protagonistas negros em aventuras, famílias diversas, cientistas, artistas, pessoas com deficiência e diferentes territórios. Representatividade precisa existir durante todo o ano.

  • Tenha um exemplar físico ou acesso legal à obra.
  • Não projete PDF obtido sem autorização nem reproduza o livro inteiro.
  • Conheça a pronúncia de nomes e referências antes da leitura.
  • Planeje perguntas abertas, mas aceite caminhos inesperados.
  • Separe materiais com diversos tons e texturas.
  • Prepare-se para intervir diante de comentários racistas sem humilhar crianças.

Sequência de leitura em três momentos

  1. Antes da leitura: observar.Apresente capa, título, autoria e ilustração. Pergunte o que as crianças imaginam e registre hipóteses.
  2. Durante a leitura: escutar.Leia com fluência, dê tempo para imagens e acolha comentários sem interromper cada página com perguntas didáticas.
  3. Depois da leitura: conversar.Retome o que surpreendeu, as imagens preferidas e as relações que as crianças fizeram com suas vidas.
  4. Releitura: aprofundar.Em outro dia, volte à obra para perceber detalhes e referências que passaram despercebidos.
  5. Documentação: acompanhar.Registre falas, perguntas, desenhos e mudanças de percepção, com autorização e finalidade pedagógica.

Perguntas abertas para a roda

Evite perguntas que testam memória logo após uma experiência poética. Prefira convites que reconheçam múltiplas interpretações: “O que você sentiu?”, “Que parte gostaria de ouvir novamente?”, “O que as imagens contam que as palavras não dizem?”, “Por que será que as amoras aparecem na história?” e “Que coisas fazem você se reconhecer como você é?”

Não pergunte apenas às crianças negras sobre cabelo ou cor de pele. Toda a turma pode observar a diversidade humana e refletir sobre respeito. Se uma criança disser que determinado cabelo ou tom é “feio”, intervenha com clareza: explique que essa ideia machuca, mostre referências positivas e investigue de onde ela veio, sem tratar o comentário como brincadeira inofensiva.

Atividade 1: autorretrato com observação

Disponibilize espelhos seguros, fotografias autorizadas, papéis e materiais em muitos tons. Convide cada criança a observar formato do rosto, olhos, cabelo, pele, sinais e expressões. Em vez de entregar um molde pronto, valorize escolhas próprias. Pergunte o que ela deseja mostrar e registre sua explicação.

Misturar tintas para encontrar diferentes tons de pele pode ser uma investigação rica, desde que não se apresente uma cor única chamada “cor de pele”. Nomeie cores como bege, marrom, cobre e outras descrições escolhidas com cuidado, lembrando que a identidade racial não se reduz à tonalidade.

Atividade 2: cabelos, texturas e cuidado

Apresente fotografias e livros com cabelos crespos, cacheados, ondulados, lisos, tranças, penteados e pessoas sem cabelo. Use fios, lã, barbante, tecidos e papéis para criar composições, sem transformar cabelo negro em objeto exótico. Fale de beleza, cultura e cuidado cotidiano.

Não toque no cabelo de uma criança sem consentimento e não promova comparações de “bom” ou “ruim”. Palavras depreciativas precisam ser enfrentadas. A escola pode convidar famílias ou profissionais negros para compartilhar saberes quando houver interesse e remuneração ou reconhecimento adequados, sem exigir trabalho gratuito.

Atividade 3: investigação das amoras e da amoreira

Se houver acesso seguro, observe frutos, folhas, galhos e mudanças de cor. As crianças podem desenhar, fotografar, comparar tamanhos, contar sementes visíveis e criar hipóteses sobre crescimento. Uma caminhada pelo entorno pode localizar árvores e discutir cuidado com espaços naturais.

Degustação é opcional e requer autorização da escola, higiene, procedência, avaliação de alergias e supervisão. Nunca ofereça fruto coletado em local desconhecido ou próximo a contaminação. A experiência não depende de comer: imagens, exemplares botânicos seguros e investigação sensorial sem ingestão também funcionam.

Atividade 4: mural “nossas referências”

Construa com a turma um painel de pessoas negras presentes na literatura, ciência, arte, esporte, comunidade e família. Evite concentrar apenas figuras históricas ligadas à escravidão. Mostre pessoas negras vivendo o presente, criando, cuidando, pesquisando, liderando e brincando.

As famílias podem enviar nomes, relatos ou fotografias somente se desejarem e com autorização para exposição. Nenhuma criança precisa revelar origem, religião ou informação familiar. O mural pode crescer durante o ano e se conectar a novas leituras.

Atividade 5: palavras que fortalecem

Retome palavras que chamaram atenção e convide as crianças a ditar frases sobre qualidades, vínculos e sonhos. O professor atua como escriba e lê o texto coletivo. Depois, cada criança escolhe uma palavra para representar com desenho, movimento, som ou colagem.

Evite elogios apenas ligados à aparência. Coragem, curiosidade, imaginação, cuidado, persistência, alegria e criatividade ampliam as formas de reconhecimento. A proposta não é obrigar autoestima positiva, mas oferecer linguagem e referências para que cada criança construa uma imagem digna de si.

O que não fazer com a obra

Evite: usar o livro apenas em novembro.
Prefira: integrar literatura negra ao acervo e ao planejamento anual.
Evite: entregar desenhos prontos da capa para colorir.
Prefira: criação autoral a partir das interpretações das crianças.
Evite: fazer uma criança negra contar experiências de racismo para a turma.
Prefira: o adulto assumir a mediação e oferecer canais protegidos de escuta.
Evite: copiar versos extensos ou digitalizar páginas.
Prefira: utilizar exemplar legal, citar brevemente e indicar a obra.

Como avaliar e documentar?

A avaliação acontece pela observação das interações, falas, perguntas, produções e modos de participar. Registre se as crianças ampliaram vocabulário, perceberam detalhes, reconheceram diferenças sem hierarquizá-las, criaram narrativas e se posicionaram diante de preconceitos. Não aplique prova sobre a história.

Um portfólio pode reunir fotografias autorizadas, transcrições de falas, autorretratos e hipóteses sobre as amoras. A documentação deve mostrar processos, não expor conflitos pessoais. Compartilhe com famílias o objetivo antirracista e convide ao diálogo quando surgirem dúvidas.

Perguntas frequentes

Qual é o objetivo de trabalhar o livro Amoras?

Promover experiência literária e ampliar conversas sobre identidade negra, autoestima, pertencimento, diversidade, palavras e natureza, respeitando interpretações infantis.

Para qual idade o livro é indicado?

A mediação pode ser adaptada a diferentes grupos da Educação Infantil. O professor deve considerar atenção, repertório, linguagem, interesses e formas de participação da turma.

Posso fazer uma degustação de amoras?

Somente com procedência segura, higiene, autorização institucional, atenção a alergias e supervisão. A leitura não depende da degustação.

Trabalhar o livro apenas em novembro é suficiente?

Não. Educação antirracista e literatura com autoria e protagonismo negros devem integrar o currículo e o acervo durante todo o ano.

Referências educacionais

Revisão editorial: Equipe IBETP — Instituto Brasileiro de Educação Técnica e Profissional. Conteúdo educacional de caráter informativo; observe também as normas da sua rede ou instituição de ensino.
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